Economia da Partilha

IG-11-01

Já parou para pensar na quantidade de coisas que tem em casa e que quase nunca usa? À primeira vista, tudo o que comprou tem uma utilidade e um propósito. Mas, se analisar bem a situação, será que precisa mesmo de possuir tudo aquilo que tem?

Um estudo recente revelou que, em média, pagamos cerca de 100€ por um berbequim que vamos utilizar apenas durante 14 minutos durante toda a vida útil do aparelho. E quem diz um berbequim diz um corta-relvas, uma máquina de fazer waffles ou uma tenda de campismo.

O QUE É MEU… TAMBÉM É TEU?

Apresentando-se, no seu estado mais puro, como uma solução mais sustentável para o planeta, a “Economia da Partilha” (ou Sharing Economy, em inglês) diz respeito à partilha de recursos, quer estes sejam físicos ou intelectuais. Neste sistema, cada indivíduo disponibiliza ao mercado coisas ou competências que possui, em troca de outros bens ou serviços. Há quem defenda que o sistema deveria estar à parte do mercado, assentando apenas na gratuitidade das trocas, o que, apesar de ser bom por princípio, não deixa de ser utópico.

À primeira vista, o conceito pode parecer uma opção de vida alternativa, essencialmente adotado por camadas mais jovens e com menor poder de compra. No entanto, se analisado a fundo, em que é que o mesmo é diferente daquilo que se praticava há 70 ou 80 anos atrás, no tempo dos nossos avós? As vantagens da utilização de um sistema deste género são inúmeras, apresentando benefícios a nível social, ambiental e humano.

Já imaginou se na sua comunidade existisse uma Biblioteca das Coisas, onde poderia alugar bens materiais sempre que necessitasse, sem ter que os adquirir? É normal e socialmente aceitável para os livros. Porque nos parece então tão estranho pensar em levar emprestada uma forma de bolo, uma tesoura de poda ou uma cesta de verga?

Ao longo das últimas décadas, empresas e governos levaram-nos a acreditar que o crescimento de um país depende do seu crescimento económico, que se encontra intrinsecamente ligado ao consumo individual dos cidadãos e das famílias. Deste modo, é socialmente aceite – e até recomendável! – que compre, que compre muito, que tenha muitas coisas e que troque sempre as suas coisas “velhas” por modelos mais novos ou tecnologicamente avançados. Mas até quando vamos fechar os olhos ao que estamos a fazer ao nosso planeta? É impossível existir crescimento infinito num planeta finito. É impossível continuarmos a consumir e a descartar coisas ao ritmo que fazemos atualmente e esperar poder continuar a fazê-lo no futuro.

A Economia da Partilha, ao contrário do sistema económico vigente, dá o poder às pessoas e às comunidades. São os cidadãos que se encontram no centro deste sistema e são eles que criam, produzem e distribuem bens e serviços entre si. Internacionalmente, este sistema também é conhecido por People’s Economy (Economia das Pessoas). A par das pessoas, o respeito pelo planeta e pelos seus recursos é também um pilar fundamental do sistema.

Paralelamente à sua clara aplicação física, a Economia da Partilha também beneficia largamente da inexistência de barreiras promovida pela internet e pelo uso generalizado de smartphones. Um dos exemplos mais conhecidos é o da Wikipédia, que funciona através da partilha de conhecimentos, de forma aberta, gratuita e facilmente acessível.

 

«É impossível existir crescimento infinito num planeta finito.»

 

Este sistema económico tem sido adotado cada vez mais ao longo dos últimos anos devido ao surgimento da crise económica, uma cada vez maior consciencialização ambiental por parte dos cidadãos e o crescimento das Tecnologias de Informação e Comunicação.

Os casos mais mediáticos (e também os mais desvirtuadores daquilo que deveria ser o sistema) são modelos de negócio como a UBER ou o Airbnb. Inseridos, por conceito e princípio, na Economia da Partilha, acabaram por dar mais primazia ao lucro que aos princípios que deveriam defender.

Os negócios baseados neste sistema são cada vez mais e vão desde a partilha de casas, automóveis, utensílios, maquinaria até à partilha de experiências e conhecimentos específicos.

No entanto, nem todos partilham da mesma visão positiva deste sistema. Um dos principais entraves ao crescimento da Economia da Partilha são os agentes económicos. Atualmente, as empresas regem-se por modelos de negócio obsoletos, que privilegiam aumentos de produção e de vendas constantes. Confrontados com este novo modelo de negócio, a sua reação é de desconfiança e de rejeição, perdendo por vezes oportunidades únicas de se adaptarem a esta nova forma de “consumo”. Faz sentido que as empresas continuem a produzir coisas e a pensar que as pessoas vão querer sempre continuar a comprar os seus produtos?

Está na hora de perceber que não tem que comprar tudo o que precisa de utilizar. E que tal pedir emprestado? Quando foi a última vez que falou com os seus vizinhos? A Economia da Partilha não traz vantagens só para o planeta. Também o põe a falar com a sua comunidade, uma coisa cada vez mais rara nos dias que correm. E lembre-se: o acesso às coisas é mais importante que a sua propriedade.

 

Este artigo foi publicado inicialmente no segundo número da Raízes Mag, dedicado ao Consumo Consciente.

 

logo - âncora verde

2 thoughts on “Economia da Partilha

  1. Mila Guedes says:

    Achei muito bom! Muitas vezes, compra-mos coisas que raramente usamos. Alugar, pedir emprestado, ou emprestar. Eporque não? Pode ser uma boa e económica solução. Ajuda a interagir com os amigos e com a vizinhança. Um costume, que de verdade que se perdeu, e faz falta.

Deixar uma resposta