Comércio Justo

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O Comércio Justo (Fair Trade em inglês) é um movimento internacional, criado por volta dos anos 60, na Holanda. O movimento pretendeu unir todos os intervenientes da cadeia comercial, dos produtores aos consumidores, denunciar as injustiças do comércio e construir princípios e práticas comerciais mais justas e coerentes. Segundo a World Fair Trade Organization, o Comércio Justo é “uma parceria comercial baseada no diálogo, na transparência e no respeito, que procura uma maior equidade no comércio internacional e contribui para o desenvolvimento sustentável, oferecendo melhores condições comerciais e garantindo direitos de produtores e trabalhadores marginalizados, principalmente no Hemisfério Sul”.

AS PESSOAS EM PRIMEIRO LUGAR

No seu âmago, o Comércio Justo não é sobre o comércio: é sobre as pessoas. Já alguma vez pararam para pensar em todos os processos envolvidos na simples produção, distribuição e comercialização de um cacho de bananas? De forma muito simplificada temos a plantação da bananeira, o acompanhamento do crescimento da árvore e a rega. Numa segunda fase temos a apanha da banana por trabalhadores agrícolas, a expedição até um primeiro intermediário, depois para um segundo, e por vezes para um terceiro, até que chegue até si na prateleira de um supermercado. Se todo o processo não parece já extenuante, acrescentemos ainda a viagem de avião obrigatória. Tudo por 0,79€ o quilo. Parece-vos justo? Que percentagem disto ganhará o agricultor? Em que condições viverá com a sua família?

São estas questões que o selo do Comércio Justo pretende colmatar. Através da certificação, os pequenos produtores asseguram um preço justo pelo seu trabalho, que lhes permita viver de forma digna. O sistema foca-se no respeito e vai muito além do que bons ordenados: requer dedicação, compromisso, acompanhamento e muita responsabilidade para com as pessoas.

Os sistemas de certificação do Comércio Justo têm foco principal em produtos agrícolas e com alta taxa de trabalho escravo e infantil, como café, cacau, açúcar, algodão, entre outros.

As duas principais entidades certificadoras são a FairTrade Internacional (FLO) e a World Fair Trade Organization (WFTO).

PRINCÍPIOS BÁSICOS DO COMÉRCIO JUSTO

  • Respeito e preocupação pelas pessoas e pelo ambiente, colocando as pessoas acima do lucro;
  • Estabelecimento de boas condições de trabalho e pagamento de um preço justo aos produtores (cobrindo as exigências da proteção ambiental e da segurança económica, para além de um rendimento digno);
  • Proteção e promoção dos direitos humanos, nomeadamente os das mulheres, das crianças e dos povos indígenas, bem como a igualdade de oportunidades entre os sexos;
  • Disponibilização de pré-financiamento ou de acesso a outras formas de crédito;
  • Estabelecimento de relações comerciais estáveis e de longo prazo;
  • Produção tão completa quanto possível dos produtos comercializados no país de origem;
  • Reforço das capacidades organizativas, produtivas e comerciais das produtoras e dos produtores através da formação e aconselhamento técnico e comercial;
  • Transparência da estrutura das organizações e de todos os aspetos da sua atividade, e a informação mútua entre todos os intervenientes na cadeia comercial sobre os seus produtos ou serviços e métodos de comercialização.

O OUTRO LADO

No entanto, apesar de os princípios serem fundamentalmente bons, com o passar dos anos o sistema foi, de certa forma, sendo desvirtuado. Com a introdução do selo do Comércio Justo nas grandes cadeias de distribuição ou nas multinacionais, fica a dúvida se o foco continua a ser o pequeno produtor ou o lucro destas instituições.

Os críticos afirmam que a certificação cedeu às pressões do mercado, mas as entidades certificadoras refutam estas afirmações e dizem que se trata de uma estratégia para levar o Comércio Justo e os seus princípios a consumidores menos atentos.

A verdade é só uma: os selos ou as certificações, sejam de que natureza forem, servem como forma de posicionamento das empresas e das marcas. E, quer se queira admitir quer não, o que é eco, sustentável e justo está na moda. E vende.

Mas como é que poderão perceber se o produto que estão a comprar segue os princípios base do Comércio Justo ou é apenas uma fachada para os lucros de uma qualquer grande empresa? A verdade é que não existe uma fórmula secreta, mas deixo-vos a seguinte dica: comprem local e a pequenos produtores. Sempre que isso não for possível, informem-se das condições de produção do bem que vão adquirir, façam perguntas e não se acomodem.

O mercado só muda se nós mudarmos primeiro.

 

Este artigo foi publicado inicialmente no segundo número da Raízes Mag, dedicado ao Consumo Consciente.

 

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