Mudar de vida III: Cabo Verde – Parte 1

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Primeira vez fora da Europa. Primeira vez no continente Africano. Primeira vez sozinha noutro país. Primeira vez a construir o meu caminho.

Aterrei no Aeroporto Internacional Cesária Évora, em S. Vicente (ou Soncente, para os amigos), no dia 30 de agosto e minha primeira sensação quando pisei solo africano foi o ar. O ar em África cheira diferente e sente-se diferente. Quente, húmido, leve, mas carregado de história. A segunda, foi o tempo. Nos primeiros dias perdi-me nas horas e nos minutos e o tempo parecia parar só para eu absorver tudo o que estava a ver. Tanto me parecia que tinha acabado de chegar, como que já pertencia à terra desde sempre.

Mas desengane-se quem acha que Cabo Verde foi amor à primeira vista. Não foi. Primeiro, porque foi escolhido a dedo, de forma desapaixonada, por um objetivo muito específico: fazer um programa de voluntariado internacional numa ONG com atuação na área ambiental. Quando cheguei, pouco conhecia da terra ou dos costumes, das pessoas ou da ilha a que agora também chamo casa. A aridez da terra causou-me estranheza e demorei a compreender o ritmo de vida. Não, Cabo Verde não foi amor à primeira vista: foi um daqueles amores que se entranham em nós aos poucos e, quando damos por ela, faz parte de nós. Daqueles que são para a vida toda.

Mas deixemo-nos de saudosismos.

Em Cabo Verde, trabalhei diretamente com a Biosfera1, uma associação não-governamental de defesa do ambiente, que começou a dar os primeiros passos em 2006. A Biosfera1 trabalha sobretudo na proteção das tartarugas e das aves marinhas, sem nunca esquecer as restantes espécies de fauna das ilhas. Tem uma intervenção direta no terreno e um papel importante na conservação destas espécies, possuindo também um importante papel de educação e sensibilização da população cabo-verdiana para estas questões. Esta apresentação, para além de simplista, é um tanto ou quanto redutora do real trabalho desta organização e da sua importância e papel junto das comunidades locais. A Biosfera1 faz realmente a diferença e foi um privilégio ter tido a oportunidade de fazer parte desta equipa.

Os trabalhos em que estive envolvida foram diversos e vou dividi-los em dois grandes grupos: o trabalho em S. Vicente, maioritariamente trabalho de escritório, de educação e de sensibilização ambiental, e o trabalho em Santa Luzia, diretamente no terreno (e que terá direito a uma publicação autónoma).

Ações de sensibilização nas escolas

Um dos grandes pilares de atuação da Biosfera1 são as ações de sensibilização junto das escolas. Depois de nos últimos anos já terem feito ações de sensibilização acerca das tartarugas marinhas, este ano o foco foram as aves marinhas.

Nestas ações, que demoravam cerca de 45 minutos, os alunos aprendiam as principais características que distinguiam uma ave marinha de uma ave terrestre, principais cuidados a ter, e ficavam a conhecer 8 das 9 espécies de aves marinhas que nidificam em Cabo Verde (a nona espécie, a Fragata, conta apenas com dois indivíduos fêmea em todo o arquipélago, razão pela qual é já considerada um “fóssil vivo”).

O principal objetivo destas ações é sensiblizar as camadas mais jovens para a importância destas espécies e promover a sua conservação.

Os efeitos positivos destas palestras já se começam a sentir, com as comunidades cada vez mais alertas e ativas.

Formações nas comunidades piscatórias

Quando me inscrevi e fui aceite para ir para Cabo Verde, uma das condições que ficou acordada de antemão é que daria formações de inglês às comunidades piscatórias de S. Vicente.

Confesso que ia com um friozinho na barriga, de quem vai sair da zona de conforto e não sabe bem o que esperar, mas passou tudo no momento em que conheci a minha turma e os meus alunos 🙂 foi muito desafiante ensinar uma turma tão grande e com níveis de inglês tão dispares (tinha alunos que já tinham bases sólidas de inglês e outros que não sabiam nada), mas no final ficamos todos de parabéns.

Estas formações, dadas em parceria pela Biosfera1 e pelas Associações de Pescadores locais, realizaram-se em 3 comunidades piscatórias: Salamansa, São Pedro e Calhau, durante os meses de setembro, outubro e novembro. Para além do inglês, foram também ministradas formações de francês, gestão e elaboração de projetos, de forma a dar resposta às principais necessidades sentidas pelas comunidades.

Nas fotos abaixo, podem ver a primeira aula e a entrega de certificados na comunidade de Salamansa.

Barraquinhas de sensibilização nas comunidades

No final de cada mês de formações, cada comunidade recebia a “Barraquinha” da Biosfera1, direcionada para as crianças, e onde estas podiam aprender um pouco mais sobre tartarugas marinhas e aves marinhas, através de jogos e atividades diversas.

Esta ação serve sobretudo para aproximar a Biosfera1 das comunidades e continuar os seus trabalhos de educação e sensibilização aos mais novos. Era notório o conhecimento das crianças que já tinham tido as ações de sensibilização nas suas escolas para nomear e identificar as espécies de aves e de tartarugas.

Aqui, o principal desafio foi manter a ordem quando todos queriam fazer tudo ao mesmo tempo. Ultrapassado, mais ou menos. 😉

Cabo Verde é morabeza. E deixa txeu sôdad.

Como fui parar a Cabo Verde?

Fui para Cabo Verde através da Associação Para Onde, que gere dezenas de programas de voluntariado internacional.

Neste momento, a Biosfera1 não tem nenhum programa em aberto, mas podem consultar todos os outros projetos incríveis do Para Onde aqui: http://paraonde.org/voluntariado-internacional/

Posso assegurar-vos que eles são cinco estrelas e que vos acompanham em todas as fases do processo (todas, mesmo!). Nunca se vão sentir desamparados mesmo estando tão longe de casa. 🙂 A melhor parte? Não têm limite de idade!


Esta publicação foi a terceira de uma série de quatro, dedicada à minha mudança de vida e luta por aquilo em que acredito. Podem ver a primeira aqui e ficar a perceber como é que esta mudança se deu na minha vida. 

 

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