Näz Fashion: Moda e Sustentabilidade

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Ainda no âmbito da Fashion Revolution Week, estive à conversa com a Cristiana, fundadora da Näz Fashion, uma empresa portuguesa de vestuário sustentável que se inspira no dia-a-dia das mulheres modernas para criar coleções mais minimalistas e conscientes.

Mas afinal que é que distingue esta marca de tantas outras que existem no mercado? Fácil: a sua autenticidade e valores ecológicos. As coleções são elaboradas a partir de reciclagem (de fios e tecidos), de materiais sustentáveis (como algodão orgânico ou liocel, uma fibra artificial obtida da celulose da polpa da madeira de árvores de florestas auto-sustentáveis) e do aproveitamento de excedentes da indústria têxtil, que de outra forma seriam descartados (provavelmente) para aterros.

Através desta estratégia, simples mas com um impacto mfuito positivo, conseguem ajudar pequenas empresas nacionais a rentabilizar os seus excedentes, que acaba por ser vendido a um preço justo em vez de ser stock parado.

A Näz foi fundada por Cristiana Costa, uma jovem designer que decidiu não baixar os braços quando percebeu que era muito difícil encontrar opções de roupa sustentáveis a um preço acessível. Criou assim a sua marca, que pretende responder a um público cada vez mais exigente e informado.

O atelier localiza-se na Covilhã, apesar da Cristiana ser Lisboeta, porque, pelas palavras da própria, “é uma zona com alta taxa de desemprego não-qualificado, principalmente na área têxtil, e, com a nossa produção própria, pretendemos criar postos de trabalho para essas mesmas pessoas!”.

Recentemente, a Näz Fashion ganhou ainda o 2.º lugar no prémio Terre de Femmes 2018, iniciativa da Fundação Yves Rocher que distingue projetos amigos do ambiente com assinatura no feminino.

A marca é inspiradora e das coleções nem se fala. Espreitem abaixo a entrevista que fiz à Cristiana e fiquem a saber um pouco mais sobre a marca, como tudo começou e quais os planos para o futuro.

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Cristiana Costa, fundadora da Näz Fashion

Âncora Verde [AV]: Olá Cristiana! Muito obrigada por teres aceite este convite e estares aqui comigo a partilhar um bocadinho da tua história e da tua marca. Vamos começar pelo princípio. Como surgiu o design, mais especificamente o design de moda, na tua vida? Sempre foi um objetivo para ti ou aconteceu mais ao acaso?

Cristiana Costa [CC]: Olá! Obrigada eu!
Uhm,o design de moda aconteceu muito por acaso na minha vida, era para ter seguido gestão na verdade, mas nada que não se complemente agora! Estudie humanidades e por isso ou era gestão ou história, nunca soube muito bem porquê o design de moda surgiu no meio disso até porque não sou uma pessoa artística, mas a verdade é que devia estar muito confiante porque foi a minha única opção, e acho que fiz muito bem!

AV: Como é que surgiu a ideia de criares uma marca de roupa ética e sustentável? Foi difícil passar da ideia até à prática? Quando é que percebeste que tinhas um projeto com potencial e que podias realmente ser bem sucedida?

CC: Ora, como todas as boas startups, criei uma marca de roupa sustentável porque como consumidora não o conseguia encontrar a não ser que estivesse associado ao mercado de luxo, e como até sou teimosa, achei que não podia ser impossível criar roupa justa a um preço justo, e lá me lancei. No início surgiu em feiras, fazia algumas peças na Universidade e vendia, ao mesmo tempo fui maturando o conceito da marca, mas acho que nessa altura nunca pensei que isto se tornasse o meu dia-a-dia.

É psicologicamente e pessoalmente desafiante criar uma empresa, já sabia que era difícil, a minha mãe fez o mesmo, mas realmente passar por isso é muito diferente, a facilidade que tenho tido é que tudo tem acontecido de forma muito natural, não forço que nada aconteça, e as pessoas têm vindo até mim, só este ano é que comecei eu a contactar lojas, acho que agora sendo um mercado em crescimento tem sido um ponto de facilidade.  No entanto obviamente que é sempre muito difícil, damos 200% de nós em algo e inicialmente é mais aprendizagem do que sucesso. Acho que ainda não me apercebi que tenho um projeto com potencial, estou a brincar mas a dizer a verdade ao mesmo tempo, como a marca até agora cresceu de um modo muito natural e gradual acho que nunca parei para pensar nisso, mas se estou ainda aqui é porque alguma coisa boa tem!

AV: E o nome, como surgiu?

CC: Toda a gente me pergunta mas na realidade não tem história nenhuma por detrás! Queria algo sonante, pequeno, sem significado e encontrei esta palavra, que é como a saudade, não tem tradução direta. É urdu e significa ter orgulho em saber que somos amados incondicionalmente, achei que era assim que eu queria que as minhas clientes se sentissem e ficou!

AV: A Naz tem um conceito fantástico e que eu adoro, mas para quem não conhece, se tivesses que definir a tua marca em três palavras, quais escolherias?

CC: Colaboração, Sustentabilidade e Minimalismo!

AV: Nesta fase inicial da marca, quais são as maiores dificuldades que estás a sentir?

CC: Os apoios que temos têm sido bons, mas acho que nunca são o suficiente e demoram imenso, nesta indústria não podemos estar parados à espera das respostas por isso o início foi difícil por causa de todo o investimento, seja económico como pessoal que tive de fazer. A minha família foi uma grande ajuda é certo, mas os primeiros (grandes) tempos da marca nem sequer tinha um ordenado, tudo era para re-investir, e isso pessoalmente é extenuante.

AV: Achas que em Portugal já começamos a ter mais consciência para os problemas da indústria da moda?

CC: Sim felizmente está a crescer cada vez mais! Há mais fornecedores com opções mais sustentáveis e o próprio consumidor tem muito mais noção do que é realmente um preço justo de uma peça de roupa!

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Esforços de Sustentabilidade da Näz Fashion


AV: A marca está a ter uma boa acei
tação por parte do público português ou ainda é um segmento que vende melhor lá fora?

CC: Estamos a aumentar muito as vendas ao público português, mas infelizmente ainda não é o suficiente, pelo que lá fora, principalmente para wholesale, tem sido muito melhor, e só desse modo conseguimos suportar os custos de ter stock em lojas portuguesas.

AV: Fala-nos um bocadinho do teu processo de produção. Sei que a Naz é uma marca 100% portuguesa, mas o que é que a distingue das outras? Como é que escolhes as tuas matérias primas? Qual o papel dos fornecedores no processo produtivo e criativo?

CC: Ora, o que nos distingue é que a nossa relação com os nossos fornecedores não é uma relação de simples compra e venda, tentamos sempre que seja uma relação colaborativa onde nós os ajudamos a desenvolver novos produtos e eles nos fornecem esses produtos. Ou mesmo a relação que temos dos restos dos das produções, eles ajudam-nos ao venderem-nos aqueles restos, e nós a eles que tiramos aquele problema enorme dos armazéns deles.

Trabalhamos só com empresas portuguesas e ainda produzimos muito no nosso atelier, onde fazemos desenvolvimento e prototipagem, no entanto, e esta é a novidade desta colecção, já temos parceiros de confecção que se movem pelos mesmos ideais que nós, empresas pequenas onde trabalham apenas mulheres, com boas condições de trabalho.

As escolhas das matérias-primas passa por pensar sempre naquilo que tem menos impacto possível, ou seja inicialmente tento sempre utilizar tecidos que já existam, de maneira a criar peças com eles e desse modo diminuir o impacto que a produção dele já teve. Também estamos a começar a utilizar tecidos provenientes de fios reciclados que são feitos na covilhã, e, espero, que malhas também! Depois temos outros tecidos que usamos, mas que são feitos através de reciclagem química (como o cupro e o lyocel), onde trabalhamos com um fornecedor com imensas preocupações ambientais e que tem o próprio tratamento de água, e também vamos começar a usar alguns algodões orgânicos. Mas o processo de selecção passa sempre pela preocupação de usar sempre primeiro o que tem o menor impacto possível.

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AV: Quais são as tuas maiores inspirações para criares uma nova coleção?

CC: As pessoas! O dia-a-dia das pessoas é o que me inspira, quero criar roupa que seja confortável e se adapte ao quotidiano de quem as usa. Normalmente inspiro-me quando viajo e observo as pessoas no seu dia-a-dia.

AV: Idealizas, desenhas, moldas, cortas, costuras, escolhes fornecedores e tratas do processo comercial da marca. É difícil? Ou quem corre por gosto não cansa?

CC: Acho que quem disse essa expressão não tinha noção de quanto tinha de correr! Mas sim, acho que não faria sentido de outro modo, quero estar realmente dentro do processo produtivo da marca, já estamos a subcontratar algumas coisas como a confecção e alguma parte do corte, porque tive realmente de fazer escolhas, mas o resto adoro, até porque agora temos uma adição à equipa, a Raquel, que tem sido uma ajuda tremenda! Mas acredito que muitas marcas de moda não funcionam e acabam por desaparecer porque quem está por detrás delas não sabe dar o devido valor ao trabalho que requer principalmente a produção, eu quero aprender tudo o que tenho à aprender, nunca deixo nada a 100% nas mãos de outras pessoas, mesmo nas confecções costumo lá passar o tempo da produção para ajudar as senhoras, pois só assim é realmente um projeto social e colaborativo.

AV: E para o futuro? Muitos planos?

CC: Sempre! Já temos umas colaborações a andar e novidades sempre a caminho. Mas a maior mesmo é que o site está finalmente online!

 

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Agradeço mais uma vez à Cristiana a oportunidade de fazer esta pequena entrevista. Foi para mim um privilégio conhecer esta marca mais de perto.

Quem ainda não segue esta marca incrível, pode (e deve) fazê-lo através do website em www.naz.pt ou através do Facebook e do Instagram. Prometo que não se vão arrepender. A marca é maravilhosa, mas as coleções são ainda mais!

 

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