Consumo Consciente

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Quando foi a última vez que pararam para pensar nas implicações que as compras que fazem podem ter nas pessoas, nas comunidades ou no planeta? Vivemos numa grande teia, onde tudo se encontra interligado e onde, mesmo as pequenas coisas, as pequenas decisões, podem ter grandes implicações. Sabiam que a forma como consumimos pode mesmo mudar o mercado?

CONSUMO: ÉTICO, SUSTENTÁVEL OU CONSCIENTE

CONSUMO ÉTICO

Não é fácil de definir o que se pode entender por Consumo Ético por uma razão muito simples: o próprio conceito de “ética” é algo difuso e depende sempre do ponto de vista do sujeito que está a analisar determinada situação.

Ainda assim, o Consumo Ético pode ser definido como um consumo que tem em consideração os direitos humanos, as condições de vida e de trabalho de todos os envolvidos no processo de produção de um determinado bem (seja alimentar, têxtil, tecnológico,…). Isto significa que as empresas se preocupam em ter uma abordagem de recursos, design e produção que potencializem os benefícios para as pessoas e para as comunidades. Podem ser englobadas neste conceito práticas como:

  • Comércio Justo;
  • Empregar grupos mais desfavorecidos da sociedade;
  • Sem exploração animal;
  • Feito à mão;
  • Apoio a obras sociais através da doação de parte dos lucros das empresas;
  • Pagar salários justos aos trabalhadores;
  • Transparência dos processos de produção.

No fundo, o Consumo Ético preocupa-se com a cadeia de produção, procurando garantir condições de trabalho mais justas e mais seguras, e promove a transparência da indústria e o respeito pelo trabalhador.

CONSUMO SUSTENTÁVEL

Já quando se fala em Consumo Sustentável, a grande preocupação assenta na vertente ambiental do consumo e é dada especial relevância aos impactos que os processos de produção possuem no meio ambiente e nos nossos ecossistemas. Dependendo da indústria de que se fala, podem estar aqui incluídas preocupações ao nível da utilização de pesticidas nas zonas de cultivo, da utilização de corantes naturais para o tingimento de tecidos, preocupações ao nível do tratamento de águas e de resíduos, do montante de energia gasto, da utilização de matérias-primas recicladas, redução de embalagens e utilização de materiais amigos do ambiente. Encontram-se englobadas práticas como:

  • Modo de produção biológico (de alimentos e matérias-primas);
  • Escolha de matérias-primas com um menor impacto ambiental;
  • Utilização de materiais reciclados;
  • Promoção de um consumo mais lento.

CONSUMO CONSCIENTE

O Consumo Consciente encontra-se inteiramente nas nossas mãos. O nosso consumo até pode ser ético ou sustentável, mas, se não for consciente, pode anular muitas das suas mais valias.

Apesar de, à primeira vista, parecer um conceito muito filosófico, o Consumo Consciente não é mais do que a nossa atitude perante o consumo. Significa ser consciente em todas as nossas compras, procurando saber de onde vem o bem que pretende adquirir, como foi cultivado ou produzido, que materiais foram utilizados, como foram as condições de trabalho de todos os que estiveram envolvidos no processo. O consumo consciente é a escolha de cada um de nós e começa já a ser um movimento social com alguma expressão nos países desenvolvidos.

Cada vez mais pessoas baseiam as suas decisões de compra mediante o impacto de determinado bem no meio ambiente, na sua saúde e na sociedade. Este impacto tem repercussões em todo o ciclo de vida do bem, incluindo a sua extração ou cultivo, geração de resíduos durante a fase de produção e expedição, nas relações éticas de trabalho e acabando apenas no momento de descarte ou reciclagem do bem.

OS IMPACTOS AMBIENTAIS DO CONSUMO

Tudo aquilo que consumimos tem um impacto no ambiente, por mais verde ou ecológico que seja o bem que estamos a adquirir.

Importa referir que o consumo, por si só, não é inerentemente bom ou mau. O consumismo, ou seja, o consumo desenfreado de coisas, é que é o problema. Não podemos sobreviver sem consumir: para respirar precisamos de consumir ar; para nos mantermos hidratados, temos que consumir água; para nos alimentarmos, precisamos de consumir alimentos. Do outro lado da moeda, temos o consumo exagerado de bens, que leva a uma exploração excessiva dos recursos naturais do planeta e interfere diretamente no delicado equilíbrio dos ecossistemas.

Estudos indicam que neste momento é exercida uma procura 1,7 vezes superior à capacidade de renovação anual dos recursos naturais do Planeta Terra. Todos os anos, o Earth Overshoot Day (Dia de Sobrecarga da Terra, ou seja, o dia em que esgotamos os recursos naturais da Terra) se celebra uns dias mais cedo e estima-se que, se continuarmos a este ritmo, em menos de 50 anos serão necessários dois planetas Terra para atender às nossas necessidades.

Está a ser emitido mais dióxido de carbono para a atmosfera do que aquilo que os nossos oceanos e florestas podem absorver. Estamos a pescar e a colher cada vez mais e mais rapidamente do que aquilo que conseguimos reproduzir e fazer reflorescer.

Os danos causados por esta nossa utilização excessiva dos recursos são cada vez mais evidentes a nível mundial, mas principalmente nos países em desenvolvimento: desflorestação, escassez de água doce, erosão do solo, perda de biodiversidade e acumulação de dióxido de carbono na atmosfera. Por sua vez, estes danos acentuam e dão origem a fenómenos, tais como as alterações climáticas, secas severas, incêndios florestais ou furacões.

A melhor forma de alterarmos esta realidade é através das nossas escolhas de consumo.

O PODER DOS CONSUMIDORES

No mundo em que vivemos, quando um só produto pode percorrer milhares de quilómetros e passar por dezenas de intermediários e vários países até chegar às suas mãos, o maior desafio é perceber em que condições esse produto foi produzido e comercializado, em especial em que condições humanas e ambientais.

Esta tarefa pode não parecer fácil, mas o poder que possuímos enquanto consumidor é enorme. Importa, no entanto, saber como o usar da melhor forma possível, de modo a que as suas ações possam ter reais impactos no mercado e na sociedade.

Existem várias formas de exercer este poder de voto, como por exemplo:

  • Exijam transparência e informação em todas as fases da cadeia de valor de um determinado produto – e, quando assim seja necessário, exijam a mudança de posturas negativas, como por exemplo violação de direitos humanos ou infração de boas práticas ambientais;
  • Façam boicotes de consumo – sempre que um produto, uma marca ou uma empresa não cumpram valores sociais, humanos ou ambientais, deixem de o comprar e optem por opções mais sustentáveis;
  • Escolham produtos certificados ou de proveniência conhecida – quando não souberem que produtos comprar ou como identificar a sua proveniência, apostem em produtos certificados (por exemplo, comércio justo ou agricultura biológica). Comprem diretamente ao produtor e apoie pequenos negócios locais;
  • Reduzam o consumo – pelo bem do Planeta, diminuam os vossos hábitos de consumo: já pensaram na quantidade de coisas que têm em casa e que (provavelmente) nunca utilizam?
  • Passem a palavra – sempre que descobrirem um produto com um impacto negativo nas pessoas e no Planeta, não guardem a informação só para vocês. Passem a palavra (sem impor uma atitude) e informem os vossos amigos ou conhecidos. Façam o mesmo para produtos com impacto positivo. O conhecimento é o primeiro passo para a mudança.

Ser um consumidor consciente passa por perceber que uma decisão de compra acertada vai para além da satisfação das suas necessidades e de encontrar a melhor relação qualidade/preço; uma decisão de compra tem sempre repercussões sobre terceiros.

NÃO SEJAM INDIFERENTES

Consumir de forma responsável significa transformar o ato de consumo numa prática permanente de cidadania. Esta prática está a crescer cada vez mais e empresas que poluem o meio ambiente, praticam trabalho escravo ou mantêm atitudes antiéticas possuem cada vez menos espaço no mercado.

A economia e a sociedade foram construídas à volta do consumo. As empresas têm esquemas cada vez mais elaborados para tentar descobrir como o influenciar, com o objetivo último de o fazer comprar cada vez mais coisas.

Não devemos esquecer, no entanto, que o consumo é muito mais que uma simples ação económica: tem implicações sociais, culturais e psicológicas. Numa sociedade que cada vez mais valoriza aquilo que se possui ao invés daquilo que se é, sabemos que não é fácil quebrar este padrão e começar a pensar e a agir de forma diferente da maioria.

O consumo consciente é um estilo de vida voluntário, quotidiano e solidário que procura garantir a sustentabilidade do Planeta, do sistema económico e das comunidades e diz respeito às nossas responsabilidades enquanto consumidores. Precisamos de nos começar a importar e a fazer escolhas conscientes e críticas, contribuindo para uma maior dignidade humana e para o respeito pelo ambiente.

A ação de milhares ou milhões de consumidores pode ditar a morte ou a vida de determinados produtos, serviços, produtores ou empresas. Não se esqueça que todas as mudanças começam por si.

«Earth provides enough to satisfy every man’s need, but not every man’s greed.»

Mahatma Gandhi

Este artigo foi publicado inicialmente no segundo número da Raízes Mag, dedicado ao Consumo Consciente.

 

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