Dicas sem Desperdício: parte II

dicas sem desperdício II

Uma vida com menos desperdício não tem que ser um bicho de sete cabeças. Depois da primeira parte destas dicas sem desperdício, deixo aqui mais 16 dicas simples e de fácil implementação:

Dica 16. Alternativa à película aderente

Até há bem pouco tempo, não existia uma alternativa ecológica à película aderente: se queríamos guardar sobras de comida no frigorífico, utilizávamos película aderente; se queríamos embrulhar uma sande ou snack para comer a meio da tarde ou fazer um piquenique, utilizávamos película aderente. Para alguns casos, existem soluções de pano ou papel (ou vidro, para o caso de guardar alimentos no frigorífico) que podemos adotar, mas reconheço que existem situações em que isto não é possível.

Neste momento, existem já o mercado várias alternativas ecológicas, que tentam pôr fim ao plástico e ao seu impacto tóxico nos alimentos. As mais famosas, feitas a partir de cera de abelha, algodão biológico e óleo de jojoba, como a  @beeswrap, são moldáveis através do contacto com as mãos e laváveis com água fria e sabão.

Esta alternativa em tecido, pode ser utilizada para preservar e embrulhar alimentos, para levar os snacks ou as sandes na carteira, ou para aquilo que quisermos fazer dela!

Dica 17. Reduzir o consumo

Depois de recusarmos tudo o que não nos faz falta (dica 10), devemos tentar reduzir ao máximo o nosso consumo.

Já pararam para pensar na quantidade de coisas que possivelmente têm em casa e que nunca (ou quase) nunca utilizaram? As compras por impulso são um dos nossos maiores inimigos e a maior parte das vezes, a sensação de novidade perde-se mesmo logo ao chegar a casa. Depois, passa a ser mais uma coisa que temos e que não tem qualquer significado para nós.

Em Portugal, cada pessoa produz em média cerca de 440kg de resíduos por ano. Apesar deste número ter diminuído cerca de 50% entre 2011 e 2016, a percentagem de lixo que vai diretamente para os aterros ainda é considerável: cerca de 30%. Dos restantes, 22% são incinerados e apenas 27% são reciclados. Não fosse isto já de si preocupante, todo o lixo plástico que vai parar aos aterros não desaparece, ficando durante milhares de anos a libertar gases tóxicos para a atmosfera.

Qual é a palavra de ordem então? Reduzir!

Dica 18. Arranjar o que se estragou

Antes desta era do facilitismo, do usar e deitar fora, do não ter cuidado e estragar, as coisas que se compravam eram verdadeiramente estimadas e valorizadas. Era impensável deitar uma camisola fora só porque tivesse aberto um buraco ou comprar um rádio novo por o antigo ter avariado.

A dica de hoje é um pouco como voltar aos hábitos de antigamente: reparar o que se estragou e que ainda tem conserto.

Vamos voltar a recorrer a costureiras, a sapateiros, a lojas de reparação de eletrodomésticos. Vamos ajudar a nossa comunidade em vez das grandes multinacionais. Vamos mudar este sistema do comprar-estragar-deitar fora. Ok?

Dica 19. Dar uso à marmita

Como dizia Adam Minter, escritor e ativista, “Quando se recicla não se está a fazer algo positivo pelo planeta. Só se está a fazer algo que é menos mau.”

Cada vez é mais usual comprarmos refeições fora de casa, que levamos para casa ou para o escritório para comer. Nestas situações de “take-away”, os estabelecimentos entregam-nos maioritariamente a comida em recipientes de plástico ou de alumínio, que não servem na verdade para mais nada e a maioria das vezes não são reciclados, ficando em aterros durante centenas de anos.

De forma a contrariarmos esta tendência, não vos peço que abdiquem de ir buscar comida fora, peço que levem as vossas próprias marmitas, tachos ou outro tipo de recipientes. Os senhores do restaurante agradecem e o planeta também agradece. E, na verdade, não é mesmo nada difícil: basta pegarmos nas coisas antes de sairmos de casa.

Dica 20. Boicote aos descartáveis

A dica de hoje é um reforço de muitas das dicas que já dei anteriormente: abolir os descartáveis da nossa vida (plástico, papel, alumínio,…). Se só dá para utilizar uma vez  então os danos que causa ao planeta são infinitamente superiores a qualquer comodismo nosso que possamos achar que vale a pena.

Este tipo de lixo não desaparece. Não é compostável. Não se degrada de forma natural.

Todos os elementos da Natureza têm um principio, um meio e um fim. Vens da terra e vais ser terra. Menos o que é criado pelo Homem – que pode ficar cá milhares e milhares de anos. Não faz sentido continuarmos a contribuir para este amontoar de lixo descontrolado. Podemos realmente fazer a diferença!

Dica 21. Escolhe em quem votas

A maior parte das vezes achamos que as nossas escolhas não têm importância nenhuma, mas na verdade pequenas mudanças podem ter grandes implicações. Para começar, temos um papel a dizer nas decisões empresariais de continuar com a forma atual de produzir as coisas ou de encontrar novas alternativas. A mudança de pequenas escolhas de compra decide a sorte das marcas que competem pelo nosso dinheiro.

Igualmente importante é também que as marcas e as empresas percebam por que razão deixamos de ser seus clientes. Desta forma, e se as empresas estiverem realmente dispostas a mudar, criamos assim um “circulo virtuoso” que liga as decisões dos consumidores ao que as empresas devem fazer para serem bem sucedidas no mercado.

Por isso temos que ter bem presente que cada vez que compramos alguma coisa, estamos a votar. Estamos a votar num produto, numa empresa, num serviço. Estamos a concordar com os ingredientes, modos de produção, políticas sociais, ambientais ou humanas que estejam por trás. Estamos a fechar os olhos e a mostrar que estas entidades não precisam de mudar. Estamos a compactuar e a optar pelo mais fácil.

Por isso temos que aprender a recusar tudo o que não faz sentido para nós, para a nossa vida, para o ambiente.

Temos que escolher como queremos usar os nossos votos.

Dica 22. Não aos balões

A largada de balões está cada vez mais na moda nos países desenvolvidos. Seja casamento, aniversário, evento da empresa, festas populares ou só porque sim, lá estamos todos a ansiar pelo momento em que vamos largar o balão, tão inofensivo, para o céu.

Mas afinal qual é o problema? O problema é que tudo o que sobe também desce! E depois da rápida euforia de vermos os balões a subir até se perderem de vista, ninguém se lembra mais do balão. Mas afinal para onde é que eles vão? O que é que lhes acontece? Não, asseguro-vos que não sobem eternamente. Eventualmente esvaziam (ou rebentam) e caem. Caem e aterram em rios, lagos e lagoas. Caem e invadem campos ou ficam presos em árvores. Caem e tornam-se lixo. Aos milhões todos os anos. Lixo que largamos em direção ao céu “porque é bonito”. A verdade é que os balões atraem animais que os confundem com alimento, principalmente nos oceanos, e acabam por ser ingeridos por tartarugas e outros amimais marinhos, que os associam a alforrecas. Quando são engolidos, podem provocar asfixia, obstrução e até morte.

Por isso fica o apelo: não façam uma largada de balões na vossa próxima festa. Não precisam de poluir o ambiente para terem um momento inesquecível.

Dica 23. Apaixona-te pela cozinha

Uma das formas mais simples de eliminarmos grande parte do lixo que produzimos diariamente, é começarmos a utilizar mais a nossa cozinha. Fazer as nossas próprias versões de leite vegetal, de manteiga de frutos secos, de almondegas, de hambúrgueres, ou do que quer que compremos de forma industrializada, reduz drasticamente o número de embalagens das quais nos temos que livrar. Partindo do princípio, claro, que compram os ingredientes que precisam de forma local, a granel e com os vossos próprios sacos.

No que toca ao Desperdício Zero, não existem dicas únicas e separadas, tudo está interligado. Por isso, apaixona-te pela cozinha. As outras mudanças vão começar a surgir naturalmente.

Dica 24. Publicidade não endereçada

Numa altura em que viver sem internet é completamente impensável, e que falamos 5x mais com as pessoas por este meio do que cara a cara, por que razão continuamos a ser tão tradicionalistas em relação à publicidade em papel?

E por publicidade em papel refiro-me a tudo o que nos tentam vender a partir da caixa do correio sem que tenhamos pedido para a receber. Super e hipermercados, lojas de eletrodomésticos e tecnologia, lojas de decoração e coisas para a casa, as promoções da mercearia da esquina, etc., etc., etc.

Já não falo do facto de nos estarem constantemente a tentar vender coisas de que não precisamos: falo da inutilidade prática de todo este papel que nos entra pela casa dentro.

Quando começamos a ser mais conscientes, a redução gradual do nosso consumismo é uma coisa muito natural. Passamos a comprar apenas quando precisamos e não apenas por impulso. E nestes casos, os incontáveis folhetos deixam de fazer sentido.

E mesmo para quem gosta de se manter a par de todas as promoções, existem sempre as versões online destes catálogos ou, quando se trata da mercearia da esquina, invariavelmente vão estar impressas em tamanho muito aumentado e coladas ao vidro para ser bem visíveis da rua.

Para quê tanto lixo então? A forma mais simples de acabarmos com isto é colocarmos o pequeno autocolante de publicidade não solicitada na nossa caixa de correio. Simples e eficaz.

Dica 25. Faz o teu próprio detergente

Existem muitas coisas na nossa vida que fazemos por uma questão de hábito e sem darmos sequer muita importância. Uma dessas coisas é o uso de detergentes. Para além dos impactos ambientais (de produção, utilização e escoamento destes produtos), os químicos são realmente nocivos para a nossa saúde. Claro que a indústria não quer que saibamos e desvaloriza os valores. Mas a verdade é uma: cada vez que utilizamos um detergente estamos a inspirar toda a sopa de químicos dos quais não sabemos as reais implicações para a nossa saúde.

Como alternativa, temos opções básicas e muito, muito eficazes, que funcionam à base de bicarbonato de sódio, água e vinagre (e óleos essenciais, para quem quiser disfarçar os cheiros). Prometo que é fácil, eficaz e barato. Só vão achar estranho as primeiras vezes.

Dia 26. Alternativas femininas

Em média, uma mulher utiliza entre 10 a 15 mil pensos higiénicos e tampões durante toda a vida. O plástico utilizado nos pensos higiénicos descartáveis demora centenas de anos a decompor-se e o processo de produção é poluente, prejudicando o planeta e os seres que nele habitam (incluindo nós). Estima-se que cerca de 4 % do lixo produzido em Portugal sejam tampões e pensos higiénicos.

Para além do inegável impacto ambiental negativo que possuem, estas opções são também extremamente nefastas para a nossa saúde. Existem vários estudos que comprovam que a maioria das alternativas existentes no mercado possuem químicos considerados como sendo potencialmente carcinogénicos, por isso está mesmo na altura de começarmos a pensar noutras opções, não está?.. Já existem no mercado várias alternativas, sendo as mais conhecidas os copos menstruais, os pensos reutilizáveis em tecido biológico ou a mesmo roupa interior feita com tecido absorvente.

Dica 27. Discos desmaquilhantes reutilizáveis

Toda a gente utiliza e raramente se pensa nas implicações que podem ter a nível ambiental. São vistos como algo imprescindível e sem alternativas fáceis e viáveis à sua utilização.

Felizmente, isto não podia estar mais longe da verdade. Para além dos desmaquilhantes que podem ser aplicados diretamente na pele, existem também já imensas opções de discos desmaquilhantes reutilizáveis, feitos à base de tecido. Podem ter os mais variados feitios e padrões e ser feitos com vários tecidos (os de algodão e os de flanela são os mais utilizados) e têm a grande vantagem de só termos mesmo de os colocar a lavar para podermos utilizar novamente.

Dica 28. Escovas de dentes de bambu

Está a chegar a altura de mudarem de escova de dentes?.. E que tal da próxima vez comprarem uma escova de bambu?

A substituição do plástico das escovas de dentes por bambu já existe há alguns anos e motivos não faltam para que todos comecemos a fazer esta troca: para começar, o bambu é totalmente biodegradável. Ao contrário das escovas de dentes tradicionais, que demoram mais de 400 anos a decompor-se, o bambu vem diretamente da natureza e o seu impacto ambiental é muito menor, em comparação com as toneladas de resíduos todos os anos provocadas pelas escovas de dentes de plástico. O bambu é ainda um antibacteriano natural, uma vez que fazem parte da sua constituição agentes que previnem a proliferação de bactérias.

Dica 29. Cotonetes de bambu

Atualmente, são encontradas cerca de 13.000 partículas de plástico por cada quilómetro quadrado da superfície do oceano, espalhados por todo o mundo e levados pelas correntes marítimas. Estima-se que 75% dos resíduos no Mar do Norte são compostos por plástico.

Para além disso, a maioria dos produtos de plástico são provenientes de petróleo bruto e necessitam de muitos recursos no fabrico – o que acelera o consumo de recursos não renováveis ​​fósseis, pelo que o uso do plástico deve ser bem ponderado e radicalmente minimizado.

Os cotonetes são especialmente problemáticos, já que são muitas vezes deitados na sanita e vão invariavelmente parar ao oceano.

O nosso comportamento, enquanto espécie “mais evoluída”, é completamente revoltante e indesculpável. A mudança nem sempre é fácil, mas é urgente e muito necessária. Pequenos gestos podem fazer uma grande diferença, por isso, se puderem, troquem os cotonetes feitos de plástico, por opções mais ecológicas, como os cotonetes feitos de bambu.

Dica 30. Lenços de pano

Esta é mais uma daquelas dicas difíceis, mas na verdade muito fácil de implementar. No tempo dos nossos avós e grande parte da infância dos nossos pais, não se utilizavam de todo lenços de papel. Utilizavam-se lenços de pano, normalmente bordados com as iniciais da pessoa a que pertenciam. Se fazem parte de uma família mais tradicionalista, é provável que também tenham (ou os vossos pais tenham escondido) um lenço de pano que é vosso de direito.

Para além dos impactos ambientais dos lenços de papel (usar – deitar fora; usar – deitar fora) que não preciso de relembrar, esta opção é, na verdade, muito mais agressiva para nós que os lenços de pano. É frequente ficarmos com o nariz irritado depois de duas ou três utilizações e isto tem uma explicação muito simples: estamos a limpar o nariz a uma árvore. Não pode ser muito agradável, pois não?.. E se for, não quero nem saber o número de químicos que os compõe.

A solução mais simples é voltarmos às origens: tornar a utilizar lenços de pano. Façam a experiência da próxima vez que estiverem constipados. Vão ver que compensa o facto de terem que ser lavados com alguma frequência.

Dica 31. Pegada ambiental

Esta última dica é muito simples: Peço-vos que analisem todo o lixo que produzem durante uma semana e que percebam de onde vem: é orgânico? São embalagens descartáveis (de take away, por exemplo)? Embalagens de comida (pacotes do arroz, dos cereais, etc.)? Guardanapos e papel de cozinha? Às vezes só precisamos de um pouco de perspetiva e este simples exercício de parar e pensar de forma mais consciente no lixo que produzimos pode fazer toda a diferença.

Depois de perceberem de onde vem o vosso lixo, percebam que hábitos podem alterar. Se o vosso lixo fica cheio com garrafas de água, se calhar o melhor era investirem numa garrafa reutilizável. O mesmo se passa se perceberem que a maior parte vem de embalagens descartáveis que poderiam ser facilmente substituídas por alternativas mais ecológicas.

Não existem regras para se começar a adotar um estilo de vida mais consciente, o que importa é começar.

Vamos lá?


#outubrosemdesperdício foi uma rubrica do âncora verde lançada em exclusivo no instagram onde, durante o mês de outubro, todos os dias foi apresentada uma nova dica para adotarmos um estilo de vida mais consciente e com menos desperdício.

Podem encontrar a primeira parte destas dicas sem desperdício aqui. Se tiverem mais dicas ou sugestões, deixem pf. em comentário a este post ou enviem-me um email para ancora@ancoraverde.pt

 

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